Agnes Félix transforma maternidade e arte em resistência cotidiana
- Portal Primeiro Frame
- há 2 dias
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Partindo da pluralidade das artes, ser multiartista é viver em movimento, é estar por trás das coxias, mas também no palco. Agnes Félix, natural de Caicó, vive nesse universo artístico desde o nascimento. Filha de uma cantora e artista plástica e de um teatrólogo, escritor e fundador de uma companhia de teatro, cresceu cercada pela arte em suas mais diversas formas. Em 1992, ano em que Agnes nasceu, também surgiu o grupo teatral “Retalhos de Vida”, criado por seus pais, projeto que a acompanha até os dias de hoje e segue em atividade.
A carreira artística começou muito cedo. Desde os dois anos de idade, ela já dava seus primeiros passos como atriz, contando com uma ampla rede de apoio formada por pais, padrinhos e tios. Atuava, participava de oficinas e estava presente em todos os ambientes artísticos possíveis.
Aos 17 anos, foi incentivada pelos pais a buscar uma formação, visto que todo o dinheiro que entrava para o grupo de teatro era destinado a figurinos, cenografia e gastos do grupo. Para sustentar a família, os pais de Agnes trabalhavam durante os três períodos, dividindo-se entre a vida artística e as salas de aula onde atuavam como professores. Então, afastando-se do universo em que sempre esteve inserida, Agnes decidiu se mudar para Natal para cursar nutrição e se dedicar à área da saúde.
As mudanças mais profundas, no entanto, viriam pouco depois, com o falecimento de sua mãe e a descoberta de que estava grávida de seu primeiro filho, Murilo. Agnes precisou dedicar-se integralmente à maternidade, assumindo, naquele momento, a única função de ser mãe. Nesse período, conheceu o atual marido, Lucas Silva, também artista, que reacendeu nela a paixão pela arte que há tempos não se permitia sentir. Pouco tempo depois, nasceu Helena, sua filha mais nova, e Agnes mergulhou novamente no universo da maternidade. Durante esse período, enfrentou momentos difíceis, em que sua saúde mental e física foram profundamente afetadas. Distanciou-se das criações artísticas e de si mesma, esgotando-se ao ocupar apenas o papel de mãe:
“Quando eu me coloquei na caixa de ser mãe, percebi que não cabia ali, e comecei a adoecer. Chegou um momento em que pensei que, para ser uma boa mãe e para que meus filhos me vejam como referência, eu precisava fazer coisas que mostrassem quem eu sou para além da maternidade. A arte fez com que eu retornasse para mim.”

Foi a partir desse momento que Agnes decidiu focar na sua carreira artística novamente. Além de atriz, atua também como organizadora de eventos, oficineira e produtora audiovisual. Na música, é cantora e triangulista em duas bandas de forró, sendo também empreendedora e professora do Ateliê Sostô, onde ministra aulas de artes visuais para crianças de 4 a 12 anos de idade na cidade de Lagoa Nova (RN). Agnes conta que abarca a arte da maternidade como profissão, trabalhando 24 horas por dia, e recebendo em troca o amor de Murilo e Helena:
“Eu não queria desistir de ser artista para ser mãe, pelo contrário, eu quis ser artista para continuar sendo uma boa mãe”
Ao contrário da estrutura familiar que teve na infância, ela afirma que precisou construir sua própria rede de apoio enquanto conciliava trabalho e criação dos filhos. Murilo, hoje com 11 anos, e Helena, de 6, cresceram acompanhando os pais em apresentações, eventos e produções culturais. Mais do que dividir a rotina, Agnes faz questão de incluir os filhos nos processos criativos e nas experiências proporcionadas pelo trabalho artístico, preocupando-se em criar seus filhos num modelo de vida dinâmico, sempre incentivando os seus sonhos. Segundo Agnes, a convivência com a arte desde cedo moldou não apenas sua carreira, mas também sua forma de enxergar a maternidade. “Vivenciei que é possível criar crianças na arte, e o que me guiou nesse processo foi saber que eu cresci assim.”
Apesar dos trabalhos, Agnes ainda lida com a incerteza diariamente de ser mãe e artista. Muitas vezes, parte do cachê recebido precisa ser destinado ao cuidado das crianças durante apresentações e eventos: “Para mulheres, geralmente já existe um cachê defasado em relação aos homens. Para as mães, então, nem se fala!”
Atualmente, Agnes mora em Lagoa Nova, onde percebeu a ausência de espaços para que os filhos pudessem brincar e se desenvolver, transformando essa necessidade em oportunidade; A experiência que já tinha com atividades manuais realizadas em casa e compartilhadas nas redes sociais, acabou despertando o interesse de outras famílias. Assim surgiu o Ateliê Sostô, projeto voltado ao ensino de artes visuais para crianças. O espaço promove atividades como escultura, recorte, colagem e pintura, estimulando coordenação motora, percepção estética e socialização:
“Eu envolvo os meus filhos o máximo que posso, tanto para construir memórias como para ajudar no desenvolvimento deles.”

Ser mãe e artista ao mesmo tempo é um grande desafio. Exige entrega, dedicação e capacidade constante de aprender a dividir-se entre a criação da vida e a criação da arte. A maternidade não significa interromper a vida artística, mas a continuidade dela sob uma nova perspectiva. Agnes compreende as dificuldades, pois carregar tantas versões de si mesma é também lidar com o cansaço, as inseguranças e os medos diários. Ainda assim, é justamente nessa complexidade de ser mãe e artista que ela encontra a força, a sensibilidade e a inspiração que alimentam sua arte e dão sentido à sua caminhada
“A maternidade não é fácil, mas eu amo ser mãe.”
Confira a galeria de fotos:
EXPEDIENTE
Texto: Andrei Oliveira
Fotografia: Arquivo pessoal - Agnes Felix
Revisão de Texto: Marcele Saraiva
Produção: João Paulo Lima
Redes Sociais: @agnesfelix @ateliesosto @primeiroframe





















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