As marcas do tempo
- João Paulo Lima

- 7 de jun.
- 4 min de leitura

As rugas no rosto de alguém, muitas vezes, parecem caminhos que foram percorridos durante a vida. Carregam as histórias vividas, os sonhos realizados ou as dores que, ao longo dos anos, ficaram registradas em seu coração e sua pele. Essas linhas quase sempre podem ser sinônimo da serenidade de quem já trilhou um longo percurso e agora não tem mais pressa em chegar. A jornada já foi cumprida, o tempo agora apresenta outro valor, sobre algo que tanto é precioso, mas que de tanto que já foi usado, agora é o corriqueiro que vale a pena, é estar entre os seus, é ter o sossego conquistado que tanto almejou por anos.
Esse ensaio fotográfico é sobre rugas, tempo, família e sossego. Seu Severino João Félix, ou simplesmente, “Seu Biu” (80)... pessoa difícil de arrancar um sorriso, mas fácil de fazer pegar a enxada e começar a limpar ao redor da plantação de macaxeira. Um ensaio que também me marca pela sensibilidade e significados... Uma família que agora tem registros de um momento simples, mas que carrega um peso de 80 anos vividos, com toda a serenidade de Sr. Biu e toda espontaneidade de Dona Severina H. Félix, ou “Dona Biu” (79). O casal de opostos, regados ao sabor do tempo, serenos como o ambiente bucólico da roça, em que foi escolhido para realizar o ensaio em família.

O que era pra ser só mais uma tarde de sábado qualquer na vida de um fotógrafo, com um ensaio agendado para “algumas fotos com meu avô que tá completando 80 anos”, assim descrito por Hellen Karla ao me contatar, tornou-se uma experiência que não posso deixar passar despercebida. Destaco neste texto alguns pontos que trouxeram esse sentimento pós-ensaio. Começo pelo cenário, um lugar cheio de significados e sentidos para o Seu Biu, a sua roça representa o que ele tem de melhor: saúde. Disposição para caminhar cerca de 4 km todos os dias para ir cuidar de seu roçado, para um senhor de oitenta anos isso é quase que como um troféu. Então é ali que ele se sente bem em estar, principalmente, se for fazendo o que mais gosta.
Outro ponto é a espontaneidade apresentada por todos. As cinco filhas do casal, netos e genros presentes estavam tão dispostos a serem fotografados, contagiando também Seu Biu, que se deixou ser dirigido em poses performáticas, carinhosas com sua companheira e em seus retratos exercendo o trabalho com a enxada. Conforme o grande retratista Marcio Scavone já dizia, oitenta por cento do sucesso de um bom retrato é responsabilidade do retratado. A fluidez de quem se deixa fotografar faz com que alcancemos com mais facilidade a essência que estamos buscando revelar quando realizamos esse tipo de foto.
A clássica afirmação de que por trás de um grande homem sempre há uma grande mulher é representada nessa história de forma diferente. Dona Biu sempre esteve ao lado e traz para esse enredo a prosa mais leve, sempre sorridente e dona das melhores resenhas; ela é o outro lado da balança, a combinação que equilibra com a seriedade. Ela e seu cachimbo, que a acompanha desde os cinco anos de idade, são como um só. Lembro-me também de forma muito forte de suas palavras: “Se tivesse saúde em minhas pernas, essa roça não estava desse jeito!”, referindo-se a uma pequena quantidade de mato que cercava as manivas.
Sem titubear, indaguei: então bora limpar isso agora? Sem nem pensar duas vezes, ela responde: agora mesmo, meu fi! Severina e Severino são muitos, assim como João Cabral de Melo Neto, em sua obra Morte e Vida Severina… “Somos muitos Severinos iguais em tudo e na sina: a de abrandar estas pedras suando-se muito em cima, a de tentar despertar terra sempre mais extinta, a de querer arrancar alguns roçados da cinza”. Não há como se desprender desses versos diante da cena em que os dois cuidam de sua roça. Como há muitos Severinos em vida, há também a satisfação de pertencer a um lugar onde eles podem cuidar e zelar.

Enquanto fotógrafos, esperamos oportunidades de estar diante de pessoas que nos permitam fazer o que estamos sempre propostos a fazer: registar suas características da melhor forma possível. Nossa mente se consome pelo que está diante dos nossos olhos, a adrenalina sobre, os batimentos vão de oitenta a cento e oitenta em segundos, só queremos fazer o que sabemos fazer: registrar o tempo, registrar a vida, registrar as oitenta vezes que seu Biu se alegrou em meio sua família. Sua vida!
Oitenta é um número de destaque nessa postagem. Oitenta anos, oitenta luas e primaveras, oitenta símbolos de força, oitenta dentes escancarados, oitenta poses, oitenta anos, oitenta anos, OITENTA ANOS! Se essa medida fosse colocada em linha reta, quantos mundos percorreria? Ah, não se mede espaço em tempo, tempo é medida de vida, que percorre o espaço da linha do tempo de alguém, o ponto de partida e o de chegada são momentos que o ser humano não conhece. A Seu Biu, mais oitenta anos de cumprimento, para que as voltas sejam ainda mais sorridentes e que sua família resguarde ainda mais lembranças sobre este dia que vivi, senti e fui contemplado com o tempo em suas rugas.
Confira a galeria de fotos:
EXPEDIENTE
Texto e fotografia: João Paulo Lima
Revisão de Texto: Marcele Saraiva
Redes Sociais: Primeiro Frame






























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