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A casa que nunca cai: entre as paredes, memórias e sonhos de Maria do Socorro

  • Foto do escritor: Marcele Saraiva
    Marcele Saraiva
  • há 1 dia
  • 4 min de leitura

Atualizado: há 8 horas


Ao procurarmos o significado de “casa”, encontramos respostas que vão além da estrutura material: é lar, é refúgio, é proteção para quem a habita. É um substantivo feminino que, embora formado por apenas quatro letras, abriga um valor imenso por trás de sua simples grafia. Diante dessa definição, será que alguém poderia ser considerado uma casa? A resposta pode até parecer relativa, mas ao conhecer Maria do Socorro Gomes da Silva, percebemos que essa é, sem dúvida, a palavra mais justa para descrevê-la. 

 


Antes mesmo do sol nascer, enquanto muitos ainda descansam, a mulher de 43 anos já se levanta para mais um dia de luta. Maria do Socorro segue para a sua barraca de lanches, montada na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), onde trabalha diariamente. Antes de conquistar um ponto fixo, ela realizava a venda dos lanches nas redondezas da universidade, indo ao encontro dos seus clientes sempre que era chamada. Hoje, é dona de seu próprio local de trabalho, que sempre está cheio de apreciadores do seu tempero e também admiradores da sua história. Porém, o caminho até aqui não foi fácil.


A sua trajetória começou mais cedo do que as meninas da sua idade e, aos 13 anos, trocou as bolas de gude, o futebol de chinelo e as pipas por uma realidade dura, passando a viver com um homem de 33 anos. A criança se transformou, precocemente, em mulher, abandonando os sonhos da juventude para assumir pesadas responsabilidades. 


A casa que deveria ser um ambiente seguro e sólido lhe causou muitas rachaduras, fissuras, que futuramente apenas foram reparadas pelo papel de ser mãe e abrigo para seus filhos. Assim como uma parede “remendada”, Maria carrega a firmeza de uma mulher que resistiu, mas também as marcas das lembranças de um tempo que transformou sua vida, deixando os remendos nas paredes de suas memórias. 


 

Nascida em Maceió e criada no Rio de Janeiro, Maria é mãe de quatro filhos e encontrou mais do que um endereço em Campina Grande. Ali, teve a chance de reconstruir sua vida e fincar raízes. Após a separação dos avós, a mudança para a cidade se tornou inevitável, e em meio a esse repentino e difícil recomeço, Maria recebeu de sua avó pratos de comida servidos com desdém:


"Eu tinha que aguentar por meus filhos", relata.  

Para garantir que nada falte à família, Maria trabalha os sete dias da semana, renunciando a momentos de descanso e lazer. Quando não está na barraca, está em casa, preparando os lanches para vender ou cuidando de quem está ao seu redor. Não há brechas para parar, precisa estar sempre um passo à frente das dificuldades, vivendo em um ciclo contínuo de batalhas onde raramente há espaço para si mesma. Ainda assim, o cansaço do corpo não se compara ao seu singelo e sincero sentimento de ser mãe. É esse amor que a mantém de pé, como as vigas que sustentam uma casa.


O lugar de refúgio que Maria representa para os seus filhos, através do cuidado e da proteção, ganhou forma concreta após conseguir conquistar sua casa própria. Ao falar do que considera sua maior conquista, Maria sorri, porque vai muito além do material:


"Aquele é o meu paraíso. Quando chego em casa, eu dou graças a Deus por ela ser minha."

Entre essas paredes, não há espaços para fantasmas do passado, apenas a esperança de um futuro melhor. Um lar que ela preenche com todo o afeto que não encontrou sob os outros tetos por onde passou. 

 

Embora tenha enfrentado obstáculos difíceis ao longo da vida, a felicidade e gratidão de Maria são inegáveis: “A vida foi dura, sim, mas valeu a pena.” Isso se reflete na maneira como atende um cliente em sua barraca e acolhe, de portas abertas, todos aqueles que estão ao seu redor. Seus dias de superação continuam se renovando a cada nova manhã. Enquanto trabalha, ela alimenta o sonho de se tornar uma Assistente Social para promover o bem-estar de pessoas em vulnerabilidade e ser, ela mesma, um lar para quem busca refúgio: “Eu quero ajudar pessoas. Eu amo servir com um sorriso no rosto!"  


 

Esta é uma parcela de Maria do Socorro, apenas um dos cômodos da grande casa que ela representa, pois a imensidão que habita em seu interior não pode ser limitada em poucas linhas ou meras páginas. Ela foi criança arteira, uma jovem sonhadora, uma mulher marcada pela violência disfarçada de amor, uma empreendedora perseverante, uma mãe que não mede esforços para garantir a proteção dos seus filhos, mas, principalmente, Maria é casa viva que acolhe, é força em formato de gente, resistindo todos os dias para que os pesadelos do passado não façam sombras nos sonhos que ainda espera realizar.  


Neste dia, homenageamos Maria do Socorro e todas as outras “Marias” que, mesmo diante das dores do passado e das dificuldades diárias na vida de uma mulher, sustentam e protegem suas famílias como verdadeiros refúgios enquanto correm atrás dos próprios sonhos.



EXPEDIENTE


Revisão de Texto: João Paulo Lima


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